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Maria Coisa Nenhuma

Maria Coisa Nenhuma

Diário de uma (ex)covidada

Março 31, 2021

Maria Coisa Nenhuma

2020, o ano em que o Covid veio de malas feitas para ficar. Sem data para abandonar, instalou-se e decidiu fazer a vida negra ao mundo. Porque não? Afinal tem esse poder. 

Passámos meses a tentar perceber como lhe escapar, como viver, como criar novas rotinas, como contornar o medo do desconhecido, como gerir esta nova realidade e de uma maneira ou de outra ele foi rindo de nós. 

Mulher prevenida dura para toda a vida, pensava eu. Assumindo a minha OCD, desde cedo me banhei em álcool gel, fiz stock de máscaras que usava e descartava corretamente, desinfetei este mundo e o outro, deixei de estar com a minha família e amigos e passei a viver praticamente em clausura. Neste momento estou numa condição que me permite estar mais resguardada e portanto o perigo seria extremamente reduzido, uma vez que, por força das circunstâncias, apenas tinha contato com 3 pessoas. 

Quando um dia, a subir meia dúzia de degraus me senti como se tivesse corrido uma maratona na ponte Vasco da Gama, achei estranho. Mas se calhar estava só cansada do dia. Depois perdi o olfacto e o paladar, de um momento para o outro, mesmo assim poderia ser apenas rinite. E aquela tosse irritante que apareceu a seguir? Devem ser as alergias. Até que veio a febre. E dois dias depois veio aquilo que não imaginei ser possível, a confirmação de que estava infetada.

A primeira coisa que fiz ao receber o SMS foi procurar o 'não' antes da palavra 'detetado'... procurei na linha de cima, na de baixo e nada. Li umas 5 mil vezes o texto (como se o resultado fosse mudar) e depois de entrar em negação/aceitação/negação, tive que aguentar as lágrimas e me confinar no quarto, enquanto tentava perceber como raio foi isto acontecer. 

Os meus 3 contactos estavam negativos, não tive nenhum comportamento de risco, estive sempre de máscara e respeitei a etiqueta respiratória, portanto como é que fiquei infetada? É uma questão que provavelmente nunca terá resposta. 

À medida que os dias foram passando, os sintomas foram agravando, procurei ajuda hospitalar e acabei por ficar internada uma semana pois já tinha os pulmões afetados. Eu já estava a rezar a todos os anjinhos porque as dores que sentia eram terríveis. Acho que pouco faltou para que eu subisse paredes, como nos filmes de exorcismos, tal era o desconforto que sentia e que não parecia ter fim. 

Depois de deixar o hospital, regressei a casa feliz mas apreensiva. Como seria a recuperação? Ficaria com sequelas? De que tipo?

Felizmente recuperei o olfacto e o paladar, quase por completo, pouco tempo depois. Mas os meus músculos parecem feitos de gelatina, não me querem obedecer. Tento fazer caminhadas para aumentar a resistência mas 200m depois já estou pronta para ser levada para casa às cavalitas, ou arrastada, tanto faz. Desde que não tenha que continuar.. Subir 8 degraus equivale a subir a infindável escadaria do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios em Lamego. Tendo em conta que neste momento inspiro mais pela boca do que pelo nariz, não sei se fale ou respire. 

Tendo em conta tudo o que uma pessoa passou e está a passar, a vacina assim de repente parece ser uma coisa fantástica. Só que não....porque afinal os ex covidados não precisam de tomar a vacina, dizem. Claro, então uma pessoa da primeira vez ficou só uns dias no hospital. Da segunda vez pode ser que fique meses. Ou não chegue a ser preciso....

Mas o Covid não me trouxe só coisas menos boas. Fez-me perceber que a vida é de fato efémera e precisa ser vivida da melhor forma possível, fazendo o que me dá prazer, tendo comigo quem faz sentido ter, dizendo não ao que nada me acrescenta, permitir-me ser feliz! Também me fez ver com outros olhos a necessidade de prestar mais atenção ao meu corpo, à minha saúde, alimentação, prática de exercício, etc. Se o meu corpo, que é a máquina que me sustenta, não estiver bem, como será a longo prazo? Outra questão importante tem que ver com a minha saúde mental (mas essa questão debaterei noutro post). 

Já todos sabemos as regras e cuidados a ter mas não posso deixar de insistir que é de facto importante protegermos a nossa saúde e a dos que nos rodeiam. Pode até ser que o Covid seja passageiro como se de uma gripe se tratasse, como também nos pode apanhar e fazer de nós gato-sapato e nos mandar ao tapete em total KO. Os sintomas não são iguais em todas as pessoas, às vezes podem até parecer insignificantes, mas na dúvida é preferível testar. 

Posto isto, será cedo para irmos para 2022?

2 comentários

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    Maria Coisa Nenhuma 05.04.2021

    É verdade! Esta pandemia está a trazer ao de cima o melhor e o pior das pessoas, sem grande meio termo.
    Posso dizer que, no meu caso, um dos contatos também ficou aborrecido por tê-lo referido. Não ficou preocupado com a possibilidade de estar infetado, mas sim incomodado por ter que fazer o teste (que deu negativo) e não poder sair de casa durante 14 dias. A liberdade era mais importante que a sua saúde e a do seu núcleo familiar. E são palavras e atitudes que não se esquecem assim facilmente.
    Na sociedade atual, é mais fácil descarregar nos outros a frustração, a raiva, o medo, o falhanço, do que analisar a situação em que se está e o porquê de algo menos positivo ter acontecido. Transpor para os outros a culpa do que nos acontece até pode deixar uma imediata sensação de leveza, mas a longo prazo só nos desgasta.
    O respeito, a tolerância, a educação, a empatia, a confiança, etc., deveriam ser as premissas máximas na relação entre pessoas. Mas infelizmente temos assistido cada vez mais ao declínio destes valores. Assusta-me um bocadinho pensar como será no futuro.
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